{"id":7,"date":"2004-07-30T07:00:00","date_gmt":"2004-07-30T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/moir.org.co\/web\/a-alca-e-os-trabalhadores\/"},"modified":"2004-07-30T07:00:00","modified_gmt":"2004-07-30T07:00:00","slug":"a-alca-e-os-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/moir.com.co\/web\/a-alca-e-os-trabalhadores\/","title":{"rendered":"A ALCA E OS TRABALHADORES"},"content":{"rendered":"<p>V\u00e1rios estudos indicam que a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas, prevista para entrar em vigor no final de 2005, afetar\u00e1 drasticamente a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do nosso continente, com profundos e destrutivos impactos nos empregos, nos sal\u00e1rios e nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho. Negociada \u00e0s pressas e de maneira sigilosa, a Alca serve unicamente aos interesses dos empres\u00e1rios estadunidenses, representando uma forma de anexa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da regi\u00e3o, um novo e cruel tipo de colonialismo. <\/p>\n<p>Vigorando as regras de &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221;, com a elimina\u00e7\u00e3o das tarifas de importa\u00e7\u00e3o e de outras medidas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s economias nacionais, a tend\u00eancia natural \u00e9 que as megacorpora\u00e7\u00f5es empresariais dos EUA abocanhem de vez os mercados da regi\u00e3o. O resultado ser\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o do que resta do parque produtivo destes pa\u00edses. Ind\u00fastria, agricultura, com\u00e9rcio e servi\u00e7os ficariam ainda mais vulner\u00e1veis diante do poderio econ\u00f4mico norte-americano &#8211; que controla 80% do PIB do continente. Com a quebradeira das empresas nacionais, haver\u00e1 brutal aumento do desemprego e queda dos rendimentos dos trabalhadores. <\/p>\n<p>Para os apologistas da Alca, o fim das barreiras comerciais cria o para\u00edso do consumo. Mas o embaixador Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es alerta os consumistas mais obcecados. &#8220;O livre com\u00e9rcio para o cidad\u00e3o, como consumidor, pode ser a possibilidade de comprar importados mais baratos e, por vezes, de melhor qualidade. Mas o consumidor, agora na condi\u00e7\u00e3o de trabalhador, poder\u00e1 perder seu emprego. Os produtos importados mais baratos eventualmente acarretam dificuldades para a f\u00e1brica ou empresa onde ele trabalha&#8221;. A abertura comercial iniciada por Collor e acelerada por FHC \u00e9 prova deste desastre. <\/p>\n<p>Al\u00e9m do desmonte de seus fr\u00e1geis parques produtivos, as na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas da regi\u00e3o ainda esbarrar\u00e3o na pol\u00edtica protecionista dos EUA &#8211; que ridiculariza o slogan de FHC do &#8220;exportar ou morrer&#8221; e desmascara o mito do &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221;. Na maior pot\u00eancia capitalista do mundo, predomina at\u00e9 hoje o discurso do &#8220;fa\u00e7a o que eu mando, n\u00e3o fa\u00e7a o que eu fa\u00e7o&#8221;. Ao mesmo tempo em que imp\u00f5em aos governos fantoches que abandonem qualquer prote\u00e7\u00e3o \u00e0s suas economias, os EUA utilizam verdadeira artilharia pesada para proteger o seu mercado. S\u00f3 nas \u00faltimas semanas, o presidente George Bush aprovou um subs\u00eddio de US$ 180 bilh\u00f5es para a agricultura norte-americana e imp\u00f4s novas barreiras \u00e0 importa\u00e7\u00e3o do a\u00e7o brasileiro. <\/p>\n<p>Estes e outros ingredientes indicam que \u00e9 imposs\u00edvel haver &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221; entre na\u00e7\u00f5es desiguais, com rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o assim\u00e9tricas. Comprovam que a vig\u00eancia da Alca seria fatal para as d\u00e9beis economias latino-americanas. Apontam tamb\u00e9m para um desastre ainda maior no Brasil. Isto porque o pa\u00eds conta com uma economia de porte, possui voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria para o com\u00e9rcio multilateral e \u00e9 \u00fanico na regi\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de contestar a hegemonia dos EUA. Por outro lado, sua estrutura produtiva n\u00e3o \u00e9 complementar \u00e0 norte-americana, ela inclusive concorre em v\u00e1rios segmentos (autom\u00f3veis, a\u00e7o, soja, etc.); j\u00e1 a sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 bem menor, assim como existem defici\u00eancias cr\u00f4nicas da sua infra-estrutura b\u00e1sica. <\/p>\n<p>A vig\u00eancia da Alca refor\u00e7aria as fragilidades do Brasil diante dos EUA. Os impactos sobre a estrutura e a din\u00e2mica da economia nacional seriam devastadores, fazendo o pa\u00eds retroceder ao per\u00edodo colonial. Isto explica porque a Alca s\u00f3 \u00e9 vi\u00e1vel se conseguir a servil ades\u00e3o do Brasil. A estrat\u00e9gia expansionista dos EUA depende disto. Como diz o soci\u00f3logo Luis Fernando Garzon, &#8220;os dotes nacionais s\u00e3o in\u00fameros e invej\u00e1veis: a) um mercado interno que, apesar de elitizado, conta com mais de 30 milh\u00f5es de consumidores; b) abundantes e valiosos recursos naturais, como a biodiversidade, petr\u00f3leo, min\u00e9rios met\u00e1licos; c) conjunto de empresas altamente competitivas ainda sob controle interno, como a Petrobras, Furnas, Votorantim, Bradesco, Embraer, etc.; d) m\u00e3o-de-obra relativamente qualificada e absolutamente mal paga; e) grande extens\u00e3o de \u00e1reas de planta\u00e7\u00e3o, fornecedoras de mat\u00e9rias-primas agr\u00edcolas; f) um conjunto precioso de filiais de multinacionais com grande capacidade de reexporta\u00e7\u00e3o&#8221;.   <\/p>\n<p>COL\u00d4NIA SEM LEI <\/p>\n<p>Se na \u00e1rea comercial o desastre \u00e9 previs\u00edvel, em outros campos os fantasmas s\u00e3o ainda mais assustadores. A quest\u00e3o dos investimentos \u00e9 uma das prioridades dos negociadores da Alca. A id\u00e9ia \u00e9 copiar o famoso Cap\u00edtulo 11 do Nafta, que j\u00e1 causou fortes danos ao Canad\u00e1 e ao M\u00e9xico. Por este instrumento jur\u00eddico, a Alca permitiria \u00e0s multinacionais processarem os governos locais por pretensa viola\u00e7\u00e3o dos &#8220;direitos de propriedade&#8221;. Elas poderiam alegar que certas leis trabalhistas, normas de prote\u00e7\u00e3o ambiental ou mesmo c\u00f3digos de defesa da sa\u00fade p\u00fablica estariam afetando os seus sagrados lucros! <\/p>\n<p>Al\u00e9m de exigirem a anula\u00e7\u00e3o destas leis, as empresas norte-americanas poderiam impor pesadas multas pelos &#8220;preju\u00edzos financeiros&#8221;. Desta forma, ficaria totalmente limitada a capacidade dos governos locais de elaborarem pol\u00edticas p\u00fablicas. O quadro \u00e9 t\u00e3o dantesco que at\u00e9 o jornal O Estado de S.Paulo ironizou um relat\u00f3rio de 42 do grupo negociador da Alca do tema investimentos. &#8220;As multinacionais ter\u00e3o poder para processar governos e cobrar indeniza\u00e7\u00f5es at\u00e9 se tiverem algum tipo de preju\u00edzo em consequ\u00eancia de uma manifesta\u00e7\u00e3o de rua&#8221;. Este disparate talvez explique porque o governo brasileiro investe com tanta f\u00faria contra a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista; o servil FHC estaria aplainando o terreno para a imposi\u00e7\u00e3o da Alca! <\/p>\n<p>Outro terreno minado nas negocia\u00e7\u00f5es em curso \u00e9 o que trata dos &#8220;direitos intelectuais de propriedade&#8221;. As regras em discuss\u00e3o dariam poder \u00e0s multinacionais para patentear todos os tipos de mercadorias. Multas e penalidades est\u00e3o em estudo nos bastidores da Alca. Elas permitiriam, por exemplo, que as poderosas corpora\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas estadunidenses elevassem os pre\u00e7os de medicamentos vitais para a popula\u00e7\u00e3o. Desde 1996, quando entrou em vigor o acordo sobre patentes da OMC, os EUA patentearam 510 medicamentos e o Brasil, apenas 36. No mesmo per\u00edodo, as importa\u00e7\u00f5es brasileiras de rem\u00e9dios norte-americanos pularam de US$ 25 milh\u00f5es para US$ 1,2 bilh\u00e3o &#8211; um aumento de 5.000 por cento! <\/p>\n<p>Os chamados &#8220;direitos de propriedade&#8221; tamb\u00e9m for\u00e7ariam as na\u00e7\u00f5es latino-americanas a aceitarem os alimentos geneticamente modificados, favorecendo multinacionais como a Monsanto, Cargill e Archer. Esta press\u00e3o colocaria em risco a seguran\u00e7a alimentar dos pa\u00edses do continente, que ficariam totalmente dependentes dos interesses destas corpora\u00e7\u00f5es, e geraria a fal\u00eancia de milh\u00f5es de lavradores &#8211; que n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0s caras patentes. Neste item, os negociadores da Alca ainda estudam a possibilidade de considerar as fontes de energia do continente (petr\u00f3leo, g\u00e1s, \u00e1gua, etc.) como &#8220;propriedade hemisf\u00e9rica&#8221;, repassando todos estes recursos estrat\u00e9gicos \u00e0s empresas norte-americanas. A pr\u00f3pria regi\u00e3o amaz\u00f4nica tende a ser enquadrada como &#8220;propriedade hemisf\u00e9rica&#8221;, permitindo a sua &#8220;internacionaliza\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>Por fim, a Alca conteria ainda uma s\u00e9rie de normas para &#8220;liberalizar os servi\u00e7os&#8221; &#8211; uma categoria bastante ampla, que inclui educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, saneamento e todos os demais servi\u00e7os que s\u00e3o pagos pelos contribuintes e s\u00e3o essenciais \u00e0 vida. Os empres\u00e1rios norte-americanos, que controlam estas negocia\u00e7\u00f5es, t\u00eam criticado o que consideram &#8220;monop\u00f3lio do Estado&#8221; e exigem que os servi\u00e7os p\u00fablicos rent\u00e1veis sejam privatizados. Est\u00e3o de olho em recursos milion\u00e1rios. Os gastos mundiais com ensino, por exemplo, superam US$ 2 trilh\u00f5es; com sa\u00fade, os governos investem cerca de US$ 3,5 trilh\u00f5es. Com a Alca, eles procuram concretizar o velho sonho liberal de privatizar todas as dimens\u00f5es da vida humana! <\/p>\n<p>Diante do exposto, ficam patentes os efeitos nefastos desta &#8220;proposta&#8221; dos EUA. Uma cartilha editada pela coordena\u00e7\u00e3o da Campanha Nacional Contra a Alca lista algumas deles: &#8220;Para os 224 milh\u00f5es de pobres e 90 milh\u00f5es de indigentes latino-americanos e caribenhos, significa o refor\u00e7o da mesma pol\u00edtica que empobrece; para os trabalhadores, significa mais desemprego, mais precariza\u00e7\u00e3o e menos prote\u00e7\u00e3o no trabalho; para os camponeses, significa o alastramento da agricultura empresarial e a entrada de produtos agr\u00edcolas dos Estados Unidos em condi\u00e7\u00f5es desleais de concorr\u00eancia; para as mulheres, significa mais discrimina\u00e7\u00e3o, maior explora\u00e7\u00e3o do trabalho e redu\u00e7\u00e3o do seu valor social ao simples valor do mercado; para os jovens, significa mais desemprego e educa\u00e7\u00e3o privada inacess\u00edvel aos que n\u00e3o podem pagar&#8221;.   <\/p>\n<p>(*) Altamiro Borges \u00e9 jornalista, editor da revista Debate Sindical e organizador do livro &#8220;Para entender e combater a Alca&#8221; (Editora Anita Garibaldi, 2002).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00e1rios estudos indicam que a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas, prevista para entrar em vigor no final de 2005, afetar\u00e1 drasticamente a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do nosso continente, com profundos e destrutivos impactos nos empregos, nos sal\u00e1rios e nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho. 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