{"id":1469,"date":"2004-06-20T07:00:00","date_gmt":"2004-06-20T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/moir.org.co\/web\/a-alca-e-o-futuro-do-capitalismo-a-sorte-esta-lancada\/"},"modified":"2004-06-20T07:00:00","modified_gmt":"2004-06-20T07:00:00","slug":"a-alca-e-o-futuro-do-capitalismo-a-sorte-esta-lancada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/moir.com.co\/web\/a-alca-e-o-futuro-do-capitalismo-a-sorte-esta-lancada\/","title":{"rendered":"A ALCA E O FUTURO DO CAPITALISMO: A SORTE EST\u00c1 LAN\u00c7ADA"},"content":{"rendered":"<p>Assim como o capitalismo liberal desmoronou em 1929, o capitalismo neoliberal implodiu junto com as torres g\u00eameas no dia 11 de setembro de 2001. Nos s\u00e9culos XVIII e XIX as burguesias protagonizaram revolu\u00e7\u00f5es para que se garantisse o direito \u00e0 propriedade. No s\u00e9culo XXI a burguesia global patrocina uma nova e terr\u00edvel revolu\u00e7\u00e3o para assegurar o direito ao monop\u00f3lio. <\/p>\n<p>Passaram-se trinta anos e as inova\u00e7\u00f5es da 3\u00aa Onda de nada adiantaram. As novas tecnologias cavaram ainda mais o abismo entre as classes e pa\u00edses, ressuscitando a temida equa\u00e7\u00e3o super-produ\u00e7\u00e3o\/sub-consumo. A financeiriza\u00e7\u00e3o prostituiu a racionalidade econ\u00f4mica e gerou ainda mais instabilidade. O incremento do hedonismo consumista s\u00f3 fez aumentar o vazio de legitimidade de uma vida em que tudo est\u00e1 \u00e0 venda, ela inclusive. Dilema das elites globalizadas: como deter a queda tendencial das margens de lucro e a fragiliza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de ades\u00e3o e de identifica\u00e7\u00e3o do sistema? O que fazer quando os m\u00e9todos compassivos e multilaterais n\u00e3o funcionam? <\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser menos brutal. Omeletes s\u00e3o feitos quebrando-se os ovos. Altera\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas no regime de acumula\u00e7\u00e3o capitalista s\u00f3 s\u00e3o viabilizadas com guerra, racismo e mistifica\u00e7\u00e3o. As institui\u00e7\u00f5es liberais-representativas e a diplomacia devem sair de cena. O Thermidor imperial veio para realizar seu papel apocal\u00edptico. <\/p>\n<p>O grande capital resolveu converter seus privil\u00e9gios em direitos inalien\u00e1veis. Institui\u00e7\u00f5es financeiras e multinacionais j\u00e1 blindaram seus interesses estrat\u00e9gicos convertendo-os em cl\u00e1usulas p\u00e9treas e irremov\u00edveis. A infalibilidade do mercado foi decretada a manu militari. As bolsas de valores s\u00e3o os verdadeiros sistemas eleitorais e os regimes de investimentos as novas constitui\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>A m\u00e1quina foi programada para romper o tecido social e n\u00e3o h\u00e1 como consert\u00e1-la. Ludd e o ludditas nunca foram t\u00e3o atuais, enquanto o movimento sindical e a esquerda institucional nunca foram t\u00e3o obsoletos. Sindicatos e partidos de oposi\u00e7\u00e3o tornaram-se um sistema de freios e contrapesos em desuso em tempos de arb\u00edtrio global. Onde falta compartilhamento sobra viol\u00eancia. O que podia se esperar de uma globaliza\u00e7\u00e3o elitizante e excludente, a n\u00e3o ser guerra em larga escala?   <\/p>\n<p>Inimigo mais que perfeito <\/p>\n<p>Os &#8220;atentados terroristas&#8221; possibilitaram o desencadeamento de m\u00faltiplas ofensivas militares e geopol\u00edticas indispens\u00e1veis para o reenquadramento econ\u00f4mico, jur\u00eddico e pol\u00edtico do capitalismo. Estas iniciativas j\u00e1 estavam engatilhadas h\u00e1 algum tempo pelos grupos vinculados ao Complexo-industrial-militar norte-americano. As explos\u00f5es do pr\u00e9dio federal em Oklahoma, da sede da AMIA e da embaixada israelense em Buenos Aires, das embaixadas dos EUA na \u00c1frica e, finalmente, os atentados em NY e Washington, cumpriram o papel de abrir caminho para a ascens\u00e3o da extrema direita e para suas solu\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias. As Mil\u00edcias norte-americanas e o Al&#8217;Qaeda &#8211; McVeigh e Bin Laden &#8211; sempre foram instrumentos d\u00f3ceis e disciplinados da CIA. <\/p>\n<p>O que aconteceu no dia 11 de setembro foi antes de tudo um golpe de Estado, e n\u00e3o foi em um Estado qualquer, mas sim naquele que \u00e9 o centro decis\u00f3rio do capitalismo global. Este putch global representa uma tentativa de soldagem do poder transnacional, financeiro e b\u00e9lico do capitalismo sob comando absoluto do Imp\u00e9rio norte-americano. <\/p>\n<p>N\u00e3o se fazem inimigos como antigamente. Hoje os fazem mais eficientemente. V\u00eam &#8220;sob encomenda&#8221; e just in time. O inimigo multiuso e com valor agregado n\u00e3o \u00e9 apenas anti-americano, \u00e9 &#8220;anti-ocidental&#8221;. Resultado: os interesses dos EUA passam a ser ent\u00e3o os interesses de toda civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. As elites imperialistas, literalmente, devem muito a Bin laden, pois lhes fez o favor de realizar o &#8220;destino manifesto&#8221; dos EUA. <\/p>\n<p>O unilateralismo da administra\u00e7\u00e3o Bush encontrou sua justificativa no unilateralismo do &#8220;terrorismo&#8221;. Com o mundo sob a amea\u00e7a de um inimigo invis\u00edvel e implac\u00e1vel, todas as formas de &#8220;leg\u00edtima defesa&#8221; imperial se justificam. N\u00e3o h\u00e1 media\u00e7\u00f5es &#8211; e tampouco pol\u00edtica, democracia e toler\u00e2ncia &#8211; entre o mal absoluto e o bem absoluto. Somos todos ref\u00e9ns desta fabulosa opera\u00e7\u00e3o de terrorismo induzido e encoberto. O que dizer ent\u00e3o dos povos e pa\u00edses situados na periferia imediata do &#8220;Imp\u00e9rio do bem&#8221;?   <\/p>\n<p>ALCA: chocando o ovo da serpente <\/p>\n<p>A ALCA n\u00e3o \u00e9 apenas mais uma aventura colonial do Tio Sam ou uma overdose de imperialismo. Est\u00e1 ocorrendo uma altera\u00e7\u00e3o qualitativa no modo de incorpora\u00e7\u00e3o da periferia. Para reorganizar os fatores econ\u00f4micos e os recursos naturais do hemisf\u00e9rio segundo suas conveni\u00eancias, as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais necessitam da garantia de plena liberdade dos investimentos e de uma nova ordem privada despida de quaisquer crit\u00e9rios pol\u00edticos ou p\u00fablicos. <\/p>\n<p>As estruturas decis\u00f3rias locais e nacionais seriam desterritorializadas. Os mecanismos de gera\u00e7\u00e3o de emprego, renda e servi\u00e7os ficariam imunes a qualquer influ\u00eancia alheia ao mercado. Espolia\u00e7\u00e3o met\u00f3dica e centralizada. Neocolonialismo de precis\u00e3o. O novo Eldorado precisa ser um &#8220;ambiente econ\u00f4mico est\u00e1vel e previs\u00edvel&#8221;. <\/p>\n<p>A ALCA j\u00e1 foi definida como &#8220;o destino natural&#8221; dos pa\u00edses americanos. As negocia\u00e7\u00f5es com a periferia servem apenas para neutralizar resist\u00eancias e acomodar interesses. Qualquer acordo neste contexto significa submiss\u00e3o consentida, pois n\u00e3o h\u00e1 nenhuma reciprocidade \u00e0 vista. Os mercados devem se abrir incondicionalmente, exceto o norte-americano por ser ele o &#8220;regulador informal&#8221; do mercado hemisf\u00e9rico, n\u00e3o podendo se sujeitar a oscila\u00e7\u00f5es provenientes de uma &#8220;concorr\u00eancia irregular&#8221;. Competidor bom \u00e9 competidor morto, anuncia nas entrelinhas o pacote de prote\u00e7\u00e3o ao a\u00e7o norte-americano. <\/p>\n<p>Livre com\u00e9rcio agr\u00edcola, apenas no quintal. O sistema agro-industrial norte-americano alega n\u00e3o poder prescindir de cotas de prote\u00e7\u00e3o e de milion\u00e1rios subs\u00eddios, previstos na Lei Agr\u00edcola de 1956 e emendas, para manter &#8220;sua coer\u00eancia e seu n\u00edvel \u00f3timo de encadeamento&#8221;. Investimentos e compras governamentais devem ser flexibilizados, impedindo-se qualquer discrimina\u00e7\u00e3o quanto a porte, nacionalidade ou desempenho da empresa competidora. Tratamento igual a desiguais \u00e9 apenas a vers\u00e3o envergonhada da lei do mais forte. <\/p>\n<p>Os EUA manter\u00e3o inc\u00f3lume seu temido arsenal de salvaguardas unilaterais: a Se\u00e7\u00e3o 301, a Super 301, a Especial 301, a Se\u00e7\u00e3o 232 e a Se\u00e7\u00e3o 122 que permitem puni\u00e7\u00f5es e exigem indeniza\u00e7\u00f5es de empresas e pa\u00edses que violem regras internas de propriedade intelectual, gerem desequil\u00edbrios econ\u00f4micos e perda de faturamento por parte de empresas norte-americanas. O capital mais protegido do mundo, efetivamente, n\u00e3o se submeter\u00e1 a sistemas hemisf\u00e9ricos de defesa da concorr\u00eancia, mecanismos anti-dumping e de resolu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias. <\/p>\n<p>A Autoriza\u00e7\u00e3o para a Promo\u00e7\u00e3o Comercial (TPA- antigo fast track) aprovada na C\u00e2mara dos Deputados dos EUA confirma a integra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o \u00fanica. A TPA cristaliza barreiras tarif\u00e1rias e n\u00e3o tarif\u00e1rias para mais de 293 produtos e ainda inaugura uma nova norma que restringe varia\u00e7\u00f5es cambiais, o que sinaliza para a dolariza\u00e7\u00e3o do bloco. Trata-se de um acordo do grande capital para privatizar os benef\u00edcios da ALCA. A sacrossanta organicidade da economia norte-americana acima de tudo. Na \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas, os EUA se reservam ao direito de intervir quando prejudicados. Alca s\u00f3 com Emenda Platt.   <\/p>\n<p>Sem medo de ser f\u00eanix <\/p>\n<p>A ALCA representa o est\u00e1gio e o laborat\u00f3rio da nova ordem unipolar e autocr\u00e1tica em gesta\u00e7\u00e3o. Est\u00e1gio porque sem a absor\u00e7\u00e3o da periferia a economia norte-americana n\u00e3o superar\u00e1 a recess\u00e3o e porque a mega-cruzada imperialista em busca da hegemonia absoluta n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sem uma base econ\u00f4mica est\u00e1vel. Laborat\u00f3rio porque a \u00e1rea de livre com\u00e9rcio a ser criada ser\u00e1 um bal\u00e3o de ensaio para o surgimento de uma nova institucionalidade capaz de vertebrar um capitalismo com um marcado perfil segregacionista e totalit\u00e1rio. <\/p>\n<p>A extens\u00e3o da guerra imperialista depender\u00e1 certamente da neutraliza\u00e7\u00e3o de todos os focos de resist\u00eancia no hemisf\u00e9rio. A &#8220;marcha para o sul&#8221; pressup\u00f4e uma minuciosa varredura de qualquer tra\u00e7o de autonomia. A pr\u00e9via exclus\u00e3o de Cuba \u00e9 uma simples amostra. O sucateamento da Argentina e do Equador, a chantagem &#8220;terrorista&#8221; contra o Peru, as enormes press\u00f5es desferidas contra Chavez na Venezuela e a militariza\u00e7\u00e3o do Plano Col\u00f4mbia atestam que a ALCA \u00e9 apenas guerra por outros meios <\/p>\n<p>Se a ALCA \u00e9 um pr\u00e9-requisito indispens\u00e1vel para a realiza\u00e7\u00e3o do projeto unipolar e totalit\u00e1rio do grande capital norte-americano, a sua derrota consiste no primeiro passo para a elabora\u00e7\u00e3o de um outro projeto de integra\u00e7\u00e3o. O n\u00e3o \u00e0 ALCA deve ser um sim a uma \u00e1rea liberada e a servi\u00e7o das grandes maiorias, com democracia participativa, justi\u00e7a e igualdade social. Diante dos tr\u00e1gicos resultados da experi\u00eancia neoliberal na Am\u00e9rica Latina nada \u00e9 mais sensato do que exigir o rompimento com o FMI e o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida externa, a desmercantiliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e a revis\u00e3o das privatiza\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>A campanha anti-ALCA, nucleada pelo Plebiscito continental, n\u00e3o pode ser apenas mais uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, um lobby bem comportado ou uma press\u00e3o facilmente ajust\u00e1vel e manipul\u00e1vel. A campanha anti-ALCA deve cumprir a miss\u00e3o de ser a incubadora de renovados sujeitos hist\u00f3ricos. Um novo bloco hist\u00f3rico constitu\u00eddo por todas as for\u00e7as democr\u00e1ticas, anti-imperialistas e anti-capitalistas do continente. <\/p>\n<p>O grande desafio da campanha anti-ALCA \u00e9 proporcionar o surgimento de espa\u00e7os aut\u00f4nomos de articula\u00e7\u00e3o de interesses, de modo a superar a in\u00e9rcia decorrente do engessamento dos canais de express\u00e3o dos &#8220;de baixo&#8221;. A constru\u00e7\u00e3o de um amplo movimento de massas capaz de retratar todas as nuances da revolta popular requer engenhosidade institucional e acurada vis\u00e3o estrat\u00e9gica. Nestes termos, a campanha continental contra a ALCA deve ser: <\/p>\n<p>a) perene e voltada para constru\u00e7\u00e3o de novas for\u00e7as hegem\u00f4nicas, e n\u00e3o somente para realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito pict\u00f3rio e perform\u00e1tico. <\/p>\n<p>b) aberta a todas formas de rebeldia anti-sist\u00eamica para ser mais que uma simples somat\u00f3ria dos res\u00edduos de for\u00e7a acumulada ( e dissipada no isolamento, na burocracia e nos jogos inter-burgueses)das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais. <\/p>\n<p>c) horizontal e socializadora do poder. Nenhum poder ser\u00e1 derrubado se o contra-poder se organizar \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a: dirigentes iluminados e suas suas bases adestradas, grandes plen\u00e1rias reproduzindo as verdades reveladas pelos reis-fil\u00f3sofos. <\/p>\n<p>d) simb\u00f3lico-cultural. Se o sucesso da ALCA depende da anula\u00e7\u00e3o\/degenera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia coletiva dos povos e das classes subalternas, a luta para derrotar a ALCA deve ser antes de tudo uma auto-descoberta cultural. O medo da origem \u00e9 o mal, e o mal \u00e9 o medo de sermos n\u00f3s, dizia Chico Science. N\u00e3o adianta montar um discurso e uma ideologia, sem que se construa uma nova postura. Uma sempre outra identidade individual-coletiva. <\/p>\n<p>Frente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de mem\u00f3rias, classes, regi\u00f5es, na\u00e7\u00f5es e Estados, s\u00f3 nos resta apostar na ininterrupta reconstru\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Todas vozes dissonantes. Todos os fragmentos de resist\u00eancia. Todas as cinzas. E F\u00eanix renascer\u00e1.   <\/p>\n<p>(*) Luis Fernando Novoa Garzon \u00e9 soci\u00f3logo e membro da ATTAC-Brasil. <\/p>\n<p>l.novoa@uol.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como o capitalismo liberal desmoronou em 1929, o capitalismo neoliberal implodiu junto com as torres g\u00eameas no dia 11 de setembro de 2001. Nos s\u00e9culos XVIII e XIX as burguesias protagonizaram revolu\u00e7\u00f5es para que se garantisse o direito \u00e0 propriedade. 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